segunda-feira, 17 de março de 2014

Esculpida 001


Expressão: "Fazer a prova dos nove"

Eis que durante as suas peregrinações à Cascata do Unicórnio Azul Pastel (CUAP) para as suas habituais sessões de “retiro”, a irmã Rosa se cruza com um grupo de amantes da Natureza, que descobriram na Serra da Esperança bons trilhos para umas passeatas.
O grupo, que vinha animado, falava da prova dos nove, uma operação que serve verificar o sucesso da execução dos raciocínios matemáticos. Curiosa acerca do assunto, levou a prova dos nove nos seus pensamentos até ao momento em que soltou um “cruzes, credo!” devido ao contacto entre as águas frias da CUAP e as suas intimidades.
Depois da isotermia entre as suas carnes e a água do seu banho, voltou ao assunto que a intrigava. A prova dos nove devia ser uma ferramenta potente na resolução dos problemas e a irmã Rosa estava decidida a utilizá-la no seu quotidiano.
A tarde foi bastante proveitosa. Estava a acontecer uma convenção eucarística de todas as paróquias circundantes, e nos intervalos das missas, os párocos iam dar umas voltas à serra para poderem rezar em comunhão com as obras naturais do Senhor, acabando por descobrir a CUAP e a sua Eva residente.
Alexandre, André, Alberto, Artur, Amílcar, Abílio, Arnaldo, Amândio e Adriano (o Amaro não pôde ir, estava ao cuidado da Soraia Chaves) comungaram e fartaram-se de comungar a tarde toda! Sim, porque só dispunham do intervalo entre as várias sessões eucarísticas, portanto, andavam em jornada entre as igrejas e o “altar”. Nunca as missas foram despachadas tão rápido, até as orações eram abreviadas em siglas e acrónimos, para poupar tempo!
Rosa, começando a fazer contas à vida descobriu que, sem se aperceber, já tinha feito a prova dos nove naquela tarde. Talvez um dia descubra que não seria bem esta a versão do grupo pedestre, mas até lá, vê-se preenchida com uma nova matemática na sua vida.

Quando alguém está desconfiado de alguém e quer tirar a situação a limpo:
Fulano: "Epá, sinto que que a Alzira me está a endrominar!"
Beltrano: "Tens de fazer a prova dos nove para esclarecer isso!"

Quando se precisa de realçar a força do método de resolução que se aplica:
Fulano: "Mas como é que isso resolve esta situação?"
Beltrano: "Fulano, isto é a prova dos nove, não há que enganar!"

Quando a pessoa não sabe qual a distancia de uma prova de atletismo em que se quer inscrever:
Fulano: "Estou com medo de não conseguir correr a prova dos 20 km!" 
Beltrano: "Faz a prova dos 9!"

domingo, 16 de março de 2014

HELP 001






Expressão: "... nas nalgas que é peixe frito!"

Ora bem! Inaugura-se a vertente HELP do Blog com uma alusão gastronómica. Desconhece-se a origem de tão improvável expressão mas o que é certo é que anda nas bocas do povo. Apela-se à participação nesta busca inglória pelas pérolas da nossa língua que, neste caso, nem o Deus Nosso Senhor o Google alguma vez ouviu falar!

A expressão aplica-se quando se pretende recusar uma ideia. Por exemplo:
Fulano: "Queres ir aquele bar onde fomos no outro dia?"
Beltrano: "Eu?? Nas nalgas que é peixe frito. Nunca mais me apanham lá!"

Ou então:

Fulano: "Amanhã vamos à pesca cedo?"
Beltrano: "Nas nalgas que é peixe frito. Preciso de dormir!"


domingo, 9 de março de 2014

FRESCA 002





Expressão: “… o burro já canta!”

Entre os abençoados servos do Senhor e pretensos fiéis da castidade com quem a irmã Rosa passava, e continua a passar, belas sessões oratórias, ora de joelhos ora em poses não tão verticais, está Igor Espinafrokov, um agricultor ucraniano foragido da Pátria, sabe-se lá porquê. Na quinta de Igor, além de todo o leque de legumes que, mais volta menos volta, vai parar à boca da Irmã Rosa, existe também um espaço reservado aos animais, como o burro Vladimir e uma matilha de galinhas, tantas que nenhuma tem nome. O catálogo animal não se esgota nos asnos e nas galinhas-lobo, mas para o caso não interessa o resto. Acontece que Vladimir conseguiu distinguir umas de entre as galinhas que lhe aguçava os instintos mais platónicos e não tardou a incubar-se naquele cérebro de burro um amor que as leis animais tardam em explicar. E como nos diz a Psicologia, tendemos a imitar aqueles que nos agradam. De forma que Vladimir começou também ele a cantar ao nascer do sol e a uivar sob a lua cheia, tal como qualquer galinha-lobo faz depois da pré-primária.
Por motivos profissionais, Igor entregava-se aos prazeres da carne só a partir de altas horas da madrugada. Atava o Vladimir a uma árvore, que o carregava no lombo a trote acelerado desde a quinta e que ali ficava perto da cascata a aguardar que a irmã Rosa saboreasse os vegetais da quinta de seu dono. Uma vez aprovados os produtos da terra, era vestir outra vez a calças, desatar a rédea do Vladimir e regressar à quinta ainda antes do nascer do sol, não fosse o burro denunciar o seu paradeiro com o canto matutino.
Os mecanismos fisiológicos no corpo de Igor, e por associação com o seu país origem, requerem alguma concentração alcoólica para funcionar corretamente. De forma que, feita avaliação do vegetal, o exausto e consolado Igor era derrotado pelos impulsos irresistíveis do sono e do Baco e acabava por prolongar a sua estadia além dos interesses da freira. A irmã Rosa, um doce de pessoa mas intolerante a pecadores, tentava trazer Igor à consciência da forma mais amorosa que lhe ocorria: “Igor, tens que ir que o burro já canta!”

Portanto, temos uma expressão que realça o dever de ter que ir embora do sítio onde nos encontramos. Por exemplo:
Fulano: “Oh Beltrano, bebe mais uma…” 
Beltrano: “Não posso pá, se ficar mais cinco minutos o burro começa a cantar”

Mais pontualmente, poderá remeter para um certo atraso relativamente ao cumprimento de horários ou agendamentos, estar fora de horas ou estar na hora para fazer qualquer coisa. Por exemplo:
Fulano: “Oh chefe, ainda posso alterar as férias?”
Beltrano: “O burro já cantou. Para o ano marca com mais cuidado”

Ou então:
Fulano:Oh Proença, acaba com o jogo que o burro já canta

Poderá ainda ser empregue com duplo sentido. Por exemplo, se formos a um concerto de Pearl Jam, se a primeira parte for feita pelo David Carreira e se por alguma razão esta parte inicial se prolongar demasiado, pode dizer-se:
Fulano: "O concerto não começava as 22h?! Estou farto de ouvir o burro cantar"

domingo, 2 de março de 2014

FRESCA 001




Expressão: “… como freira na cascata
 
Numa primeira abordagem à nova condição, a irmã Rosa solta a veia egoísta e cria esta expressão em redor da sua própria experiência.
Entregue desde cedo e de livre vontade aos desígnios do Senhor, lança-se no seu maior sonho – resumir a Bíblia a um máximo de dez páginas, já com espaçamento de 1,5. Com o ímpeto da missão a corroer-lhe a entranhas, sente uma repulsa pela enclausura do Convento. Do mundo exterior conhece pouco mas a rebeldia, que sempre a caraterizou, e os instintos carnais, coisa mais recente, levam-na a visitar regulamente um sítio mais do que outros. A cascata do Unicórnio Azul Pastel serve de cenário aos encontros com o padre Nascimento (entre outros) e às orações que ambos fazem no corpo um do outro, seguido de um banho revigorante nas águas de cachoeira numa clara alusão ao relato de Adão e Eva. Na cascata, a irmã Rosa é outra pessoa, como se a sua missão na Terra fosse estar ali a flutuar acima de quaisquer problemas.
Portanto, a expressão poderá aplicar-se a uma pessoa completamente relaxada e despreocupada. Por exemplo, um indivíduo que tire férias para um destino de praia, poderá afirmar:
- “Ah, já estava a precisar. Estou como freira na cascata!”

Poderá ser aplicada também para descrever uma pessoa que terminou um relacionamento amoroso, e que não só não está abalada como ansiosa por estabelecer em breve relações fugazes e consecutivas, dada a recente alteração de disponibilidade. Por exemplo:
Fulano (a simular tristeza): “Olha pá, terminei com o Fulana. Já não dava!”
Beltrano: “Pensas que me enganas?!! Agora é que estás mesmo como freira na cascata.”

A abrangência da expressão permite ainda ser aplicada no sentido de estar à vontade com alguma coisa. Mais especificamente, poderá também caraterizar uma pessoa que domina uma determinada área do saber. Por exemplo:
Fulano: “Epá, tenho andado nervoso por causa do teste de amanhã.”
Beltrano: “Não te preocupes, em Química sempre estiveste como freira na cascata!”

sábado, 1 de março de 2014

Os limites da Palavra




A Palavra.
Nobre criação dos homens cansados de tentativas de comunicação falhadas. Quem sabe se um avanço tecnológico do gesto, talvez um aperfeiçoamento sonoro do grunhido, certamente uma perseguição da necessidade.

A realidade, por outro lado, não é criação nossa. Aliás, o projeto está tão além do nosso alcance que continuamos nesta empresa, inglória e sem fim à vista, de descobrir afinal o que é isto da Vida e do que ela trás por arrasto. Mas nem por isso deixamos de precisar dizê-la. Descrevemos o que conseguimos com os recursos que os idiomas nos dão. A Palavra continua a evoluir a par da necessidade que temos dela, embora não suprima lacunas na hora de descrever ideias mais rebuscadas. E se hoje é assim, imagine-se por exemplo a frustração, enclausurada e em expansão contínua, dos caçadores em grupo, mais do que os da Pré-História, os da Pré-Palavra. O que dariam eles para poder abdicar dos gestos exigentes e demorados, fiéis cúmplices da presa em fuga, e lançar umas palavrinhas inteligíveis e mortíferas: “Oh Zé, vai por esse lado que eu vou por este!”.
É certo que conseguimos transmitir a maior parte do que queremos dizer. Mas a Língua fomos nós que a criámos, imperfeita, e a mensagem que queremos dizer não está muitas vezes contemplada nos nossos dicionários. Não é que nos falte a palavra certa. Às vezes ela não existe de todo! Talvez parte desta evolução não passe por criar novas palavras, mas novos arranjos entre as que já existem, trazendo à vida expressões que se eternizam e se colam a um significado apartado do literal. O povo, sábio e ávido de ultrapassar limites, é perito em fazer isso naturalmente. Vejamos! Quando se diz que alguém amarrou o burrinho não se imagina a dita pessoa a prender a extremidade de uma corda a uma estrutura fixa quando na outra extremidade estaria um Equus africanus asinus, vulgo asno. Estar a leste do Paraíso não remete para uma posição geográfica relativamente ao local  para onde presumivelmente iremos se nos portarmos bem. E falar pelos cotovelos está longe de ser uma atividade levada a cabo por uma pessoa com três bocas. 

Entediada pela monotonia que se vive no Convento de Lorde Cotonete, a irmã Rosa, temente a Deus mas ansiosa por encurtar o número de páginas da Bíblia, cuja leitura lhe ocupa demasiado tempo, acaba por fugir e instalar-se no único sítio digno de abrigar uma serva do Senhor: a pura cascata do Unicórnio Azul Pastel. Sedenta de expressões capazes de abreviar o esforço da comunicação, a irmã Rosa, doravante identificada como a freira da Cascata, refugia-se na criatividade e na ânsia para fintar os limites de Palavra.
Ámen!