A Palavra.
Nobre
criação dos homens cansados de tentativas de comunicação falhadas. Quem sabe se
um avanço tecnológico do gesto, talvez um aperfeiçoamento sonoro do grunhido,
certamente uma perseguição da necessidade.
A
realidade, por outro lado, não é criação nossa. Aliás, o projeto está tão além
do nosso alcance que continuamos nesta empresa, inglória e sem fim à vista, de
descobrir afinal o que é isto da Vida e do que ela trás por arrasto. Mas nem
por isso deixamos de precisar dizê-la. Descrevemos o que conseguimos com os
recursos que os idiomas nos dão. A Palavra continua a evoluir a par da necessidade
que temos dela, embora não suprima lacunas na hora de descrever ideias mais rebuscadas.
E se hoje é assim, imagine-se por exemplo a frustração, enclausurada e em
expansão contínua, dos caçadores em grupo, mais do que os da Pré-História, os da
Pré-Palavra. O que dariam eles para poder abdicar dos gestos exigentes e
demorados, fiéis cúmplices da presa em fuga, e lançar umas palavrinhas
inteligíveis e mortíferas: “Oh Zé, vai por esse lado que eu vou por este!”.
É
certo que conseguimos transmitir a maior parte do que queremos dizer. Mas a Língua
fomos nós que a criámos, imperfeita, e a mensagem que queremos dizer não está muitas vezes contemplada
nos nossos dicionários. Não é que nos falte a palavra certa. Às vezes ela não
existe de todo! Talvez parte desta evolução não passe por criar novas palavras,
mas novos arranjos entre as que já existem, trazendo à vida expressões que se
eternizam e se colam a um significado apartado do literal. O povo, sábio e ávido
de ultrapassar limites, é perito em fazer isso naturalmente. Vejamos! Quando se
diz que alguém amarrou o burrinho não se imagina a dita pessoa a prender a
extremidade de uma corda a uma estrutura fixa quando na outra extremidade
estaria um Equus africanus asinus, vulgo asno. Estar a leste do
Paraíso não remete para uma posição geográfica relativamente ao local para onde presumivelmente
iremos se nos portarmos bem. E falar pelos cotovelos está longe de ser uma
atividade levada a cabo por uma pessoa com três bocas.
Entediada pela
monotonia que se vive no Convento de Lorde Cotonete, a irmã Rosa, temente a
Deus mas ansiosa por encurtar o número de páginas da Bíblia, cuja leitura lhe
ocupa demasiado tempo, acaba por fugir e instalar-se no único sítio digno de
abrigar uma serva do Senhor: a pura cascata do Unicórnio Azul Pastel. Sedenta
de expressões capazes de abreviar o esforço da comunicação, a irmã Rosa,
doravante identificada como a freira da Cascata, refugia-se na criatividade e na
ânsia para fintar os limites de Palavra.
Ámen!

Assim seja...... :D
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