domingo, 9 de março de 2014

FRESCA 002





Expressão: “… o burro já canta!”

Entre os abençoados servos do Senhor e pretensos fiéis da castidade com quem a irmã Rosa passava, e continua a passar, belas sessões oratórias, ora de joelhos ora em poses não tão verticais, está Igor Espinafrokov, um agricultor ucraniano foragido da Pátria, sabe-se lá porquê. Na quinta de Igor, além de todo o leque de legumes que, mais volta menos volta, vai parar à boca da Irmã Rosa, existe também um espaço reservado aos animais, como o burro Vladimir e uma matilha de galinhas, tantas que nenhuma tem nome. O catálogo animal não se esgota nos asnos e nas galinhas-lobo, mas para o caso não interessa o resto. Acontece que Vladimir conseguiu distinguir umas de entre as galinhas que lhe aguçava os instintos mais platónicos e não tardou a incubar-se naquele cérebro de burro um amor que as leis animais tardam em explicar. E como nos diz a Psicologia, tendemos a imitar aqueles que nos agradam. De forma que Vladimir começou também ele a cantar ao nascer do sol e a uivar sob a lua cheia, tal como qualquer galinha-lobo faz depois da pré-primária.
Por motivos profissionais, Igor entregava-se aos prazeres da carne só a partir de altas horas da madrugada. Atava o Vladimir a uma árvore, que o carregava no lombo a trote acelerado desde a quinta e que ali ficava perto da cascata a aguardar que a irmã Rosa saboreasse os vegetais da quinta de seu dono. Uma vez aprovados os produtos da terra, era vestir outra vez a calças, desatar a rédea do Vladimir e regressar à quinta ainda antes do nascer do sol, não fosse o burro denunciar o seu paradeiro com o canto matutino.
Os mecanismos fisiológicos no corpo de Igor, e por associação com o seu país origem, requerem alguma concentração alcoólica para funcionar corretamente. De forma que, feita avaliação do vegetal, o exausto e consolado Igor era derrotado pelos impulsos irresistíveis do sono e do Baco e acabava por prolongar a sua estadia além dos interesses da freira. A irmã Rosa, um doce de pessoa mas intolerante a pecadores, tentava trazer Igor à consciência da forma mais amorosa que lhe ocorria: “Igor, tens que ir que o burro já canta!”

Portanto, temos uma expressão que realça o dever de ter que ir embora do sítio onde nos encontramos. Por exemplo:
Fulano: “Oh Beltrano, bebe mais uma…” 
Beltrano: “Não posso pá, se ficar mais cinco minutos o burro começa a cantar”

Mais pontualmente, poderá remeter para um certo atraso relativamente ao cumprimento de horários ou agendamentos, estar fora de horas ou estar na hora para fazer qualquer coisa. Por exemplo:
Fulano: “Oh chefe, ainda posso alterar as férias?”
Beltrano: “O burro já cantou. Para o ano marca com mais cuidado”

Ou então:
Fulano:Oh Proença, acaba com o jogo que o burro já canta

Poderá ainda ser empregue com duplo sentido. Por exemplo, se formos a um concerto de Pearl Jam, se a primeira parte for feita pelo David Carreira e se por alguma razão esta parte inicial se prolongar demasiado, pode dizer-se:
Fulano: "O concerto não começava as 22h?! Estou farto de ouvir o burro cantar"

1 comentário:

  1. Lol!!! A ansiar pelo próximo post.....Vamos lá ver quando é que o burro canta ( sem ofensa ao escritor!!! )

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