Expressão: “… o burro já canta!”
Entre
os abençoados servos do Senhor e pretensos fiéis da castidade com quem a irmã
Rosa passava, e continua a passar, belas sessões oratórias, ora de joelhos ora
em poses não tão verticais, está Igor Espinafrokov, um agricultor ucraniano foragido
da Pátria, sabe-se lá porquê. Na quinta de Igor, além de todo o leque de legumes
que, mais volta menos volta, vai parar à boca da Irmã Rosa, existe também um
espaço reservado aos animais, como o burro Vladimir e uma matilha de galinhas,
tantas que nenhuma tem nome. O catálogo animal não se esgota nos asnos e nas
galinhas-lobo, mas para o caso não interessa o resto. Acontece
que Vladimir conseguiu distinguir umas de entre as galinhas que lhe aguçava os instintos
mais platónicos e não tardou a incubar-se naquele cérebro de burro um amor que
as leis animais tardam em explicar. E como nos diz a Psicologia, tendemos a
imitar aqueles que nos agradam. De forma que Vladimir começou também ele a
cantar ao nascer do sol e a uivar sob a lua cheia, tal como qualquer galinha-lobo
faz depois da pré-primária.
Por
motivos profissionais, Igor entregava-se aos prazeres da carne só a partir de
altas horas da madrugada. Atava o Vladimir a uma árvore, que o carregava no
lombo a trote acelerado desde a quinta e que ali ficava perto da cascata a
aguardar que a irmã Rosa saboreasse os vegetais da quinta de seu dono. Uma vez
aprovados os produtos da terra, era vestir outra vez a calças, desatar a rédea do Vladimir e
regressar à quinta ainda antes do nascer do sol, não fosse o burro denunciar o seu paradeiro com o canto matutino.
Os
mecanismos fisiológicos no corpo de Igor, e por associação com o seu país
origem, requerem alguma concentração alcoólica para funcionar corretamente. De
forma que, feita avaliação do vegetal, o exausto e consolado Igor era derrotado pelos impulsos irresistíveis do sono e do Baco e acabava por prolongar a sua estadia além dos interesses da freira. A irmã Rosa, um doce de pessoa
mas intolerante a pecadores, tentava trazer Igor à consciência da forma mais
amorosa que lhe ocorria: “Igor, tens que ir que o burro já canta!”
Portanto,
temos uma expressão que realça o dever de ter que ir embora do sítio onde nos encontramos. Por exemplo:
Fulano:
“Oh Beltrano, bebe mais uma…”
Beltrano: “Não posso pá, se ficar mais cinco minutos o burro começa a cantar”
Beltrano: “Não posso pá, se ficar mais cinco minutos o burro começa a cantar”
Mais pontualmente, poderá remeter para um certo atraso relativamente ao cumprimento de
horários ou agendamentos, estar fora de horas ou estar na hora para fazer qualquer coisa. Por exemplo:
Fulano:
“Oh chefe, ainda posso alterar as férias?”
Beltrano:
“O burro já cantou. Para o ano marca com mais cuidado”
Ou então:
Fulano:
“Oh Proença, acaba com o jogo que o burro já canta”
Poderá ainda ser empregue com duplo sentido. Por exemplo, se formos a um concerto de Pearl Jam, se a primeira parte for feita pelo David Carreira e se por alguma razão esta parte inicial se prolongar demasiado, pode dizer-se:
Fulano: "O concerto não começava as 22h?! Estou farto de ouvir o burro cantar"
Lol!!! A ansiar pelo próximo post.....Vamos lá ver quando é que o burro canta ( sem ofensa ao escritor!!! )
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